O sucesso estrondoso de “Devoradores de Estrelas” nas bilheterias americanas pegou a indústria de surpresa. A produção estrelada por Ryan Gosling arrecadou US$ 80,6 milhões em seu fim de semana de estreia, tornando-se a segunda maior abertura para um filme fora de franquia na última década, atrás apenas de “Oppenheimer”. Além do desempenho financeiro, a adaptação dirigida por Christopher Miller e Phil Lord conquistou críticos e público: são 95% de aprovação no Rotten Tomatoes entre os especialistas e 96% entre os espectadores.
Embora a trama — que acompanha um astronauta fazendo amizade com um alienígena para salvar dois planetas de uma catástrofe solar — siga uma estrutura tradicional de jornada do herói, o longa se destaca por subverter silenciosamente várias regras do cinema blockbuster contemporâneo. Há pelo menos quatro ensinamentos que Hollywood poderia absorver desse fenômeno, mesmo que, por enquanto, pareça resistir a eles.
O primeiro deles é confiar na inteligência da plateia. Embora o filme simplifique alguns aspectos do livro de Andy Weir, ele ainda mergulha em conceitos científicos sem subestimar a capacidade de compreensão de quem assiste. O roteiro evita o vício moderno de repetir informações à exaustão, algo que muitos associam a produções da Netflix, ainda que a empresa negue essa abordagem. Vale lembrar que “Oppenheimer”, o outro grande sucesso não baseado em franquia dos últimos anos, também apostou em uma narrativa densa e intelectual. A lição é clara: errar pelo excesso de sofisticação é sempre menos arriscado do que tratar o espectador como desatento.
Outro ponto fundamental é a aposta na sinceridade e no otimismo. O protagonista Ryland Grace encarna uma postura rara no cinema atual: ele é movido por um “vamos dar um jeito” genuíno, sem cinismo. O filme ainda ousa não apresentar nenhum vilão, pois todos os personagens são pessoas boas e competentes tentando fazer o que é certo. Há ainda uma reviravolta inteligente quando se descobre que Grace não se voluntariou para a missão quase suicida, o que torna sua superação ainda mais heroica. Com isso, a produção entrega uma aventura com a leveza dos filmes familiares dos anos 1980, mas sem o tom frenético e irônico que hoje domina o gênero.
A paciência na edição também surge como uma virtude. Com 2 horas e 36 minutos de duração, “Devoradores de Estrelas” inclui cenas que muitos estúdios, como a Disney, provavelmente cortariam. Um exemplo é o funeral emocionante que Grace faz por tripulantes que o público mal conheceu, ou o momento em que a personagem de Sandra Hüller canta em um karaokê. Nenhuma dessas sequências avança a trama principal nem traz ação ou comédia escancarada, mas ambas adicionam camadas de profundidade emocional à narrativa.
Por fim, o longa reforça o valor dos efeitos práticos. Os diretores revelaram que não usaram telas verdes ou azuis em nenhuma cena. A nave foi construída como um cenário físico, e o alienígena Rocky foi interpretado por um boneco animatrônico presente no set. Essa escolha gerou grande repercussão positiva nas redes sociais e se conecta a um desejo crescente do público por autenticidade. Exemplos recentes em outras franquias mostram o mesmo movimento: os atores pilotando caças reais em “Top Gun: Maverick”, os cenários físicos de Denis Villeneuve em “Duna” e o retorno dos animatrônicos em “Alien: Romulus”.
Enquanto a indústria avança para soluções híbridas com inteligência artificial como forma de reduzir custos, a recepção de “Devoradores de Estrelas” sugere que o público valoriza cada vez mais o “feeling” do real. Não se trata apenas de estética, mas de uma conexão emocional que os efeitos digitais puros dificilmente conseguem replicar. Em um cenário onde o espectador é bombardeado por conteúdos artificiais, produções que entregam textura e tangibilidade se tornam um diferencial competitivo difícil de ignorar.










