Vinte anos depois da estreia que transformou Miley Cyrus em um fenômeno mundial, Hannah Montana ganhou um especial no Disney+. Disponível na plataforma desde 24 de março, a produção foi claramente feita para celebrar a data, mas o resultado deixa a sensação de que poderia ter ido muito além.
Miley Cyrus revela, em um dos trechos mais sinceros, que o especial quase não aconteceu. Ela começou a dar pistas em entrevistas antes mesmo de qualquer aprovação, na tentativa de mobilizar os fãs e pressionar os executivos. O plano deu certo, mas o sinal verde veio tão em cima da hora que as gravações principais ocorreram no dia 27 de fevereiro, menos de um mês antes da estreia. Esse cronograma apertado ajuda a explicar o maior problema do especial: os parcos 58 minutos de duração e uma edição que salta de um assunto a outro sem construir uma linha narrativa consistente.
A estrutura do programa intercala três momentos principais. O primeiro é uma entrevista de Miley com a apresentadora Alex Cooper, que traz algumas revelações pessoais. Depois, há participações especiais de personalidades ligadas à sua trajetória, entre elas Selena Gomez, cujo reencontro com a antiga colega de Disney se tornou um dos destaques mais comentados. Por fim, três músicas de Hannah Montana são apresentadas em um show intimista para fãs.
Selena Gomez aparece justamente para revisitar sua participação nos primeiros episódios da série e, de forma quase simbólica, encerrar de vez os rumores de rivalidade que circularam por anos por conta do envolvimento de ambas com Nick Jonas. Quando Selena afirma que Miley “criou cultura” e ouve de volta um “você também”, o momento funciona como um selo afetivo para quem acompanhou a trajetória das duas. É um dos raros instantes em que o especial entrega algo realmente inédito.
O problema é que a lista de convidados deixa lacunas evidentes. Fora Billy Ray Cyrus, que interpretava o pai dentro e fora da série, nenhum outro integrante do elenco original foi chamado para dividir memórias. Emily Osment (Lily), Jason Earles (Jackson), Mitchel Musso (Oliver) e Moises Arias (Rico) estão ausentes, ainda que a maioria tenha participado da pré-estreia em Los Angeles. Em vez deles, a produção reservou espaço para Chappell Roan, que fala sobre a influência de Hannah Montana em sua vida — um discurso bonito, mas que não acrescenta nada de novo além do que qualquer fã já poderia dizer.
A impressão de que o especial foi montado às pressas se confirma também na montagem. As cenas são costuradas com as vinhetas características da série original, mas sem um fio condutor claro. Ainda assim, há momentos que conseguem emocionar. Quando Gary Marsh, ex-presidente do Disney Channel, lê o e-mail em que defendia a escalação de Miley Cyrus como “a opção mais arriscada, mas a única possível”, é impossível não sentir o peso daquele acerto. As conversas de Miley com a mãe Tish e com o pai Billy Ray também entregam camadas de afeto que elevam o tom nostálgico.
Tudo isso culmina na performance de “Younger You”, música que Miley Cyrus escreveu especialmente para refletir sobre esse ciclo de vida e carreira. O número final funciona como um catarse que relembra ao espectador a época em que a maior preocupação era não perder um episódio inédito.
No balanço geral, o especial de 20 anos de Hannah Montana cumpre o papel de celebrar o fenômeno cultural que a série foi. Porém, sua brevidade e as escolhas de elenco deixam um gosto de “queria mais” — um sentimento que, ironicamente, combina com a pressa que marcou toda a produção.









