Em diversos momentos da projeção de O Jogo do Predador, a sensação de que algo grandioso está por vir é quase palpável. Disponível na Netflix, o thriller estrelado por Charlize Theron e Taron Egerton vive desses lampejos de promessa, mas raramente os transforma em entregas satisfatórias. Com uma única exceção de fôlego no terço final, a nova produção do diretor Baltasar Kormákur (Evereste) é daquelas obras que funcionam muito melhor no papel do que na prática — um exercício frustrante de quase acertos e potenciais desperdiçados.
A trama apresenta Sasha (Theron), uma montanhista experiente que, após perder o marido (Eric Bana) em um acidente radical na Noruega, busca refúgio na natureza selvagem da Austrália. O que começa como um retiro solitário de caiaque e escalada rapidamente se transforma em um pesadelo quando ela conhece Ben (Egerton). O rapaz, que a princípio parece um guia local prestativo, revela-se um serial killer canibal com um esporte favorito: caçar humanos com uma besta. A virada não é spoiler — os trailers já entregavam o jogo —, mas o problema é o que o filme faz (ou deixa de fazer) com ela.
Kormákur e o roteirista Jeremy Robbins (Uma Noite de Crime) acertam na escolha do elenco. Theron é uma força da natureza, incorporando a sobrevivente durona com um atletismo que faz rapel, mergulho em cavernas e escalada descalça parecerem rotina. Do outro lado, Egerton surpreende ao transformar seu carisma habitual em algo viscoso e impenetrável — um psicopata que parece ter saído de uma versão proibida de Kingsman. No papel, o duelo entre os dois é perfeitamente equilibrado. Na prática, porém, O Jogo do Predador nunca se compromete totalmente com o confronto que promete.
As sequências de ação são todas pela metade. Sasha foge, é capturada, arrastada, escapa, mas o diretor islandês e seu montador Sigurdur Eythorsson raramente exploram o impacto físico ou dramático de cada situação. Não há aquela maratona de tensão mecânica que faz o espectador torcer pelos próximos movimentos da protagonista. O filme hesita entre ser um terror de serial killer genuinamente macabro, um drama de luto e superação ou um simples esporte radical contra a natureza. E ao tentar ser tudo ao mesmo tempo, entrega muito pouco de cada coisa.
É uma pena, porque os valores de produção estão bem acima da média do streaming. As filmagens em locação na Austrália impressionam, com fotografia de Lawrence Sher (Coringa) que transforma cachoeiras e penhascos em peças de um tabuleiro mortal. A sequência de abertura na Noruega, com direito a barraca pendurada em um paredão de 90 graus, já estabelece o padrão visual impecável. Kormákur sabe usar o cenário a seu favor. O que falta é um roteiro à altura — ou pelo menos um que não tenha medo de suas próprias ideias.
O resultado é um longa que se assemelha a um B-movie com orçamento de A-movie: curto, grosso, visualmente elegante, mas narrativamente raso. A exceção honrosa vem no último ato, em uma sequência final onde o atletismo de Theron, a escala da produção e o olhar admirado do diretor finalmente se alinham para criar alguns minutos de cinema ansioso e emocionante. Contudo, é muito pouco para um filme que dura menos de 1h30 e que chega ao catálogo com a responsabilidade de entregar o que os trailers venderam: um jogo de gato e rato sanguinário na floresta australiana. Quem busca exatamente isso pode até se divertir, mas sairá com a sensação de que o verdadeiro predador aqui foi a própria hesitação do roteiro.









