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Hoppers, o Novo Filme da Pixar: Uma Aventura Animal Divertida que Quase Alcança a Grandiosidade do Estúdio

Hoppers, o Novo Filme da Pixar: Uma Aventura Animal Divertida que Quase Alcança a Grandiosidade do Estúdio

Hoppers, novo filme animado da Pixar, une comédia científica, aventura animal e mensagens emocionantes numa história sobre salvar a natureza. Veja nossa crítica completa.

Guilherme Carocia by Guilherme Carocia
7 de março de 2026
in Críticas, Crítica de Séries, Entretenimento, Filmes
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Não é exatamente novidade dizer que a outrora dourada reputação da Pixar já não é o que costumava ser. O estúdio de animação 3D nunca saiu da conversa cultural, mas após revolucionar a indústria nos anos 1990 e entregar uma série de obras-primas indiscutíveis nos anos 2000, a Pixar só ocasionalmente voltou a alcançar o nível de grandiosidade que antes era sinônimo de seu nome. Parte disso se deve à dependência excessiva de sequências, mas até mesmo seus originais mais recentes nem sempre correspondem ao prestígio de clássicos atemporais como Procurando Nemo, Os Incríveis ou Wall-E. Seu filme mais recente, a comédia científica animal Hoppers, não chega a esse nível de inspiração — mas ainda assim emerge como um esforço animado e admirável, capaz de entreter famílias inteiras nas salas de cinema.

A Premissa: Consciências em Corpos de Robôs-Animais

Hoppers acompanha Mabel (com voz de Piper Curda), uma estudante universitária apaixonada por animais que cresceu sob a influência da avó e desenvolveu profundo amor por uma clareira tranquila próxima à sua casa. Quando o prefeito de Beaverton, Jerry Generazzo (voz de Jon Hamm), anuncia a demolição desse espaço para abrir caminho a uma autoestrada, alegando que os animais já abandonaram o local, Mabel descobre que há algo muito mais sombrio por trás do projeto. Em sua investigação, ela acaba se deparando com uma tecnologia de transferência cerebral desenvolvida por sua professora na universidade e, sem hesitar, coloca sua própria consciência dentro de um castor robótico para se comunicar diretamente com os animais e convencê-los a retornar ao habitat.

O conceito — apelidado no filme de hopping, ou salto cerebral — remete claramente a referências culturais conhecidas, e a própria produção tem consciência disso. Em determinado momento, um personagem exasperado exclama que a história “não tem nada a ver com Avatar!”, numa piada que funciona justamente porque a semelhança é inegável. Mas enquanto o filme de James Cameron explorava o tema com seriedade épica, Hoppers abraça o absurdo com leveza e energia cômica, o que confere ao longa uma personalidade própria mesmo dentro de um conceito familiar.

Direção Ágil e Roteiro com Energia Maníaca

Dirigido por Daniel Chong e escrito por Jesse Andrews — ao qual se atribui boa parte dos momentos de humor mais afiado —, Hoppers apresenta uma energia maníaca ao mover sua narrativa por inúmeras grandes ideias e complicações inesperadas. O ritmo frenético garante que o filme nunca perca a atenção do público. No entanto, essa velocidade tem um custo: os momentos emocionais teriam um impacto muito maior se o roteiro permitisse que a história respirasse com mais frequência. Há uma sensação de que emoções genuínas ficam enterradas sob camadas de piadas e reviravoltas, sem nunca ganhar o espaço necessário para realmente tocar o espectador. A subtrama sobre Mabel e sua avó, por exemplo, é poignante em sua concepção, mas parece inserida apenas para cumprir a cota emocional da Pixar, sem ser plenamente integrada à jornada da protagonista.

O que mantém o filme ancorado é o fio condutor do desejo de Mabel de fazer ao menos “uma coisa” dar certo num momento em que sente que tudo desmoronou. Essa vulnerabilidade central é universalmente reconhecível, e é ela que salva Hoppers de ser apenas um espetáculo de ação sem alma. A direção de Chong é particularmente competente nas sequências de ação: uma das cenas mais deliciosas do filme envolve um tubarão participando de uma perseguição de carro de forma absolutamente hilária — uma das melhores sacadas visuais da animação recente.

Rei George: O Melhor Personagem da Pixar em Anos

Se há um elemento em Hoppers que merece ser destacado com entusiasmo, é o Rei George, o monarca bonachão do reino dos mamíferos, interpretado por Bobby Moynihan. É um personagem difícil de fazer funcionar: sua principal característica é uma bondade intrínseca e empatia genuína por absolutamente todos e tudo, o que o tornaria enfadonho nas mãos erradas. Mas a performance de Moynihan e o roteiro de Andrews constroem sua visão de mundo ingênua de forma coerente e convincente — ele acredita completamente nela, conseguindo extrair o melhor das pessoas ao enxergar esse potencial antes de qualquer um. O Rei George merece um lugar entre os melhores personagens que a Pixar já criou. A relação entre ele e Mabel pode seguir algumas batidas dramáticas previsíveis, mas sua química genuína prevalece no ato final do filme.

Verossimilhança e as Limitações do Mundo Animal

A maior fraqueza de Hoppers está na construção de seu mundo. O reino de Rei George funciona segundo as “regras do lago” — um código que pode ser resumido no princípio “estamos todos juntos nisto”, dito literalmente em diálogo. É um sentimento positivo, mas logicamente problemático. De maneira semelhante ao longa O Robô Selvagem (2024), Hoppers adota uma visão adocicada de comunidade animal em que predadores e presas convivem em harmonia — com a ressalva de que os predadores podem comer “quando precisarem”, tratando mortes como piadas. É divertido quando um animal explicando as regras do lago é inexplicavelmente devorado no meio da fala, mas isso não resolve a contradição fundamental da configuração.

Essa falta de verossimilhança é o que impede Hoppers de se igualar aos melhores trabalhos da Pixar. Filmes como Monstros S.A. ou Os Incríveis criaram mundos completamente separados do nosso, cujas regras bizarras ainda pareciam internamente consistentes. Procurando Nemo, por outro lado, se passava claramente em nosso mundo real e não traía nossa compreensão do comportamento animal mesmo com suas personagens antropomorfizadas. Hoppers parece tentar algo parecido com Nemo em termos de ambição narrativa, mas incorpora elementos incongruentes demais. Essa capacidade de acreditar na lógica de um universo ficcional é o que permite ao público também acreditar nas apostas emocionais dos personagens — e é aqui que Hoppers começa a perder coerência.

Tom Mais Sombrio que o Esperado — e Momentos de Humor Afiado

Há uma surpresa de tom em Hoppers: o filme é mais sombrio do que muitos pais podem esperar. O humor é seco e subestimado, e boa parte dele deriva de violência — afinal, o reino animal é um lugar brutal. Quando uma rainha inseto é esmagada no meio de um discurso e o acidental assassino esfrega as mãos cobertas de entranhas na parede, a piada funciona, mas o momento tem uma brutalidade incomum para uma produção familiar. Há também vibrações de ficção científica e suspense: numa reviravolta do terceiro ato, um inseto transfere sua consciência para um robô humano numa cena descrita como “assustadora” até mesmo por crianças de onze anos que assistiram ao filme. Hoppers é um filme PG, mas não é feito apenas de castores fofos.

No aspecto da mensagem temática, Hoppers demonstra uma maturidade surpreendente ao elevar a dignidade humana sem negar a natureza falha das pessoas. Num diálogo marcante, um personagem afirma que todos têm algo de bom dentro de si. Um personagem mais cínico rebate: “Você sabe que isso não é verdade.” E o primeiro responde: “Mas você não gostaria que fosse?” Essa perspectiva — de que as pessoas são falhas, mas ainda merecem ser amadas e têm capacidade de arrependimento — é mais honesta do que a maioria dos filmes animados costuma ser. Hoppers reconhece que a convivência pacífica exige sacrifícios reais, e que nem todos os vilões podem ser redimidos.

Veredicto Final: Vale a Pena Ver Hoppers?

Entre um vilão surpresa cujo plano é estabelecido e derrotado rapidamente demais para causar impacto real, uma resolução do conflito entre Mabel e o prefeito bem-intencionada mas levemente desonesta, e o detalhe confuso de que Mabel precisa explicar aos monarcas animais que os humanos estão invadindo seu território — como eles ainda não sabiam disso? —, Hoppers tem arestas demais para receber nota máxima. Mas o filme ainda apresenta humor genuíno, sequências de ação brilhantemente dirigidas e um desfecho emocionante que não desfaz os sacrifícios necessários para chegar lá.

Hoppers pode não ser a próxima obra-prima da Pixar, mas o diretor Daniel Chong entrega uma produção sólida que certamente proporcionará uma boa experiência para famílias no cinema. Mesmo com seus tropeços narrativos, personagens simpáticos, direção competente e uma mensagem central sobre coexistência, arrependimento e amor pela natureza mantêm o filme na coluna dos acertos do estúdio. Em sua forma animada e imperfeita, Hoppers é exatamente o tipo de filme que tenta ganhar você — e, na maior parte do tempo, quase consegue.

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Guilherme Carocia

Guilherme Carocia

Pós-graduado em Marketing e movido pela paixão por tecnologia e literatura, Guilherme transformou um blog pessoal, criado em 2010, no Burn Book, um dos maiores portais de literatura jovem do Brasil. Como escritor, é coautor da aclamada série Minha Vida e tem contos publicados em antologias de grandes editoras como Wish, Villa-Lobos, Rouxinol e a Editora Burn Books, com destaque para “Estarei em Casa para o Natal”. No áudio, é criador e editor do BurnCast, podcast no qual é responsável pela curadoria, roteirização e pós-produção, consolidando sua expertise no universo digital e literário.

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