Quando criança, eu amava os filmes da Pixar. Cresci encantado com Buzz e Woody, mas confesso que, com o tempo, acabei me distanciando do estúdio, como quem deixa os brinquedos da infância para trás ao entrar na vida adulta. No entanto, foi preciso um grupo improvável de criaturas falantes da floresta para me reconectar com essa magia. E o responsável por isso é Cara de Um, Focinho de Outro, a mais nova aposta do estúdio que chegou aos cinemas para emocionar tanto os pequenos quanto os crescidos.
Toy Story estreou poucas semanas depois que complete 11 anos. Como toda criança dos anos 1990, eu era obcecado. Mas minha relação com a Pixar sempre foi marcada por ciclos: guardo com carinho as memórias dos primeiros filmes, alguns que inclusive me acompanharam até a adolescência. Quando chegou a hora da faculdade, naturalmente me despedi e deixei que a nova geração assumisse o controle. Como acontece nos filmes do estúdio, sempre haviam crianças mais novas prontas para viver aquelas aventuras.
Confesso que os lançamentos mais recentes da Pixar nem sempre acertaram o tom, e a estreia de um novo filme começou a parecer mais uma obrigação do que um evento especial. Até Hoppers.
As criaturas falantes da floresta que protagonizam essa história conquistaram o público infantil antes mesmo de os adultos se darem conta do fenômeno. As crianças aguardavam ansiosamente por semanas, algumas fazendo questão de criar cartazes artesanais para levantar durante a sessão, com frases como “Uau!”, “Amei o filme” e “Agora tenho medo de animais”. Esse último cartaz, no entanto, não foi necessário. A plateia passou a maior parte do tempo rindo das trapalhadas dos bichos, envolvida por aquela conhecida fórmula Pixar: uma fábula moral repleta de lições sobre autoconhecimento, coragem, trabalho em equipe e superação. Tudo dentro do esperado.
O que eu não esperava era a minha própria reação. As críticas antecipadas já diziam que Hoppers era o melhor trabalho do estúdio em anos, mas eu não fazia ideia do quanto precisava de uma história sobre coletividade contada por meio de criaturas fofinhas.
A trama acompanha Mabel, uma universitária que desde criança encontra na natureza a paz necessária para controlar seu temperamento explosivo. Após passar a juventude recolhendo lixo e ajudando animais, ela enfrenta um prefeito aparentemente simpático que planeja construir uma estrada exatamente no lugar que ela mais ama: um bosque querido por todos. Determinada a salvar o local, Mabel descobre um experimento secreto de sua professora: uma tecnologia que permite transferir cérebros humanos para corpos de robôs com formas de animais, acelerando pesquisas de campo. Uma espécie de Avatar, como os próprios personagens brincam. E é aí que a mágica acontece.
Mabel assume o corpo de um castor robô e mergulha em um mundo animal repleto de regras próprias. Lá, descobre que a democracia que tentou praticar entre os humanos não funciona entre os bichos. Mas ao revelar que o prefeito usa árvores falsas para emitir frequências que afastam os animais, ela desperta a união da floresta.
Os cientistas que a monitoram chegam a chamá-la de uma líder no estilo Joana d’Arc. Para mim, Mabel lembra Tracy Flick e Leslie Knope. E quando uma integrante do conselho animal a classifica como estridente e antipática, não pude deixar de lembrar dos ataques que candidatas mulheres sofrem na vida real.
Foi nesse momento que percebi o poder duplo do cinema infantil bem feito. Na sessão em que assisti, as crianças estavam vidradas na tentativa dos animais de frustrar os planos do prefeito. Mas, sem perceber, absorviam uma lição sobre força política e ação coletiva. Enquanto isso, os adultos se pegavam comparando o prefeito Jerry a figuras políticas reais, mas ainda assim completamente envolvidos pela narrativa.
A mensagem central de Hoppers, além da sátira política afiada, está na sabedoria que a avó de Mabel compartilha: é difícil ficar com raiva quando você se sente parte de algo grande. A solução apresentada pode até parecer uma fantasia onde todos deixam as diferenças de lado para resolver problemas comuns. Mas o lembrete sobre responsabilidade compartilhada com o próximo e com o planeta ressoa forte em tempos de incertezas.
Sei que a história do cinema ainda reserva filmes que explicam o funcionamento do mundo de forma mais explícita. Mas saí da sala feliz por redescobrir que a Pixar ainda tem um amigo em mim.









