Quatro meses após o fim da série principal, Stranger Things: Histórias de 85 já está disponível na Netflix e promete reacender a chama da nostalgia dos fãs. Ambientada entre a segunda e a terceira temporada do live-action, a produção animada mantém os personagens queridos – Eleven, Mike, Will, Lucas, Dustin e Max – mas surpreende ao substituir todo o elenco original de dubladores. Nomes como Millie Bobby Brown e Finn Wolfhard dão lugar a vozes mais jovens, como as de Brooklyn Davey Norstedt, Luca Diaz e Benjamin Plessala. A decisão, explicada pelo showrunner Eric Robles ao Digital Spy, tem um motivo claro: fidelidade cronológica. “Trazer o elenco original significaria vozes mais maduras. Todo mundo cresce”, afirmou Robles. “Com a história se passando na época da segunda temporada, vozes mais profundas não funcionariam. Queríamos manter a juventude e capturar a inocência de crianças sendo crianças.”
E o resultado é surpreendentemente eficaz. Mesmo sem os atores originais, as novas vozes conseguem reproduzir as inflexões e trejeitos que marcaram os personagens por temporadas, criando uma familiaridade imediata. Quase parece que nada mudou – até que a própria música de abertura ganha novos arranjos, avisando que este é um universo paralelo, mas igualmente cativante. A trama acompanha o grupo de Hawkins lidando com partículas remanescentes do Mundo Invertido, que evoluem e se tornam ameaças cada vez mais fortes após o fechamento do portal por Eleven. É nesse cenário que a animação brilha de verdade. A dupla de roteiristas Joshua Pruett (Phineas e Ferb) e Jennifer Muro (Star Trek: Prodigy), junto ao diretor Phil Allora (Lilo & Stitch, Tarzan, Mulan), aproveita todas as possibilidades do formato. As cenas são coloridas, vibrantes, e os seres do Mundo Invertido ganham textura e brilho especiais que elevam o terror lúdico a outro patamar.
As sequências de ação são outro ponto alto. Cada episódio introduz novos recursos visuais e estratégias de batalha, elevando os riscos de forma gradativa. Ainda que dependamos dos poderes de Eleven e saibamos que ela sempre vai se recuperar a tempo, a intensidade do confronto final chega a superar – em puro fôlego narrativo – a morte do Vecna na temporada conclusiva do live-action. Mas o coração de Histórias de 85 está nos laços entre os personagens, agora realçados pela chegada de Nikki (voz de Odessa A’zion), filha da professora de ciências substituta. Nikki usa seu porte para espantar valentões, mas nunca tinha feito amizades verdadeiras devido às constantes mudanças de cidade. Sua conexão com Will é especialmente emocionante: ela confronta a superproteção de Mike e ajuda o amigo a confiar em si mesmo para se defender, funcionando como uma versão antecipada da Robin que só viria a aparecer na terceira temporada.
A série também está repleta de easter eggs que remetem à inauguração do Starcourt Mall e da sorveteria Scoops Ahoy, além de deixar em aberto o paradeiro de Nikki – afinal, ela não aparece nos live-actions, e a produção certamente precisará justificar isso no futuro. Com dez episódios já disponíveis, Stranger Things: Histórias de 85 acerta ao transformar a limitação da troca de elenco em uma vantagem criativa. A animação não apenas restaura a nostalgia dos primeiros anos, mas a expande com ousadia visual e emocional, provando que Hawkins ainda tem muito fôlego para inspirar novas histórias.









